sábado, 27 de setembro de 2008

Mamãe, eu sou reaça: em defesa de Bento XVI

Andam dizendo por aí que a Igreja é culpada pela pandemia de AIDS, já que é contra a camisinha. Olha: não sei qual é o prazer sádico que há em chutar cachorro morto. O anticlericarismo deve ter saído de moda, sei lá... depois de Voltaire? Vamos ser originais, minha gente. Se não originais, pelo menos intelectualmente honestos.

Querer culpar Bento XVI por tudo é forçar demais a barra. Acontece que: 1) A dogmática católica é contra o sexo antes do casamento; 2) Dentro do casamento, é contra o sexo sem fins reprodutivos, logo, sem camisinha ou outros métodos contraceptivos. Sem julgamento de valor, a questão é somente lógica: por que raios alguém iria escolher seguir uma determinação ("Vou transar se camisinha") e ignorar totalmente a outra ("Devo esperar o casamento"), mesmo entre os "não-praticantes"?

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

"Ideologia emburrece"

Só hoje é que eu fui ler uma carta da viúva de Paulo Freire em repúdio à Veja, excremento semanal de Abril. É sobre uma matéria sobre o finado que foi feita há um mês. Também não li a matéria, que não sou leitor assíduo da revista.

Fique claro: não sou desses que tem uma alergia a idéias de direita só porque são, ora, de direita. Meu problema com a Veja não é ideológico, é meramente técnico. Gostem ou não, a revista tem o direito — assegurado pela Constituição — de defender o mercado, o funk carioca ou o papa Bento XVI.

Colocar a questão em termos ideológicos, é exatamente o que eles querem. Escrever, como a viúva escreve, uma ode a Paulo Freire, condenando a "ética do mercado", "o endinheirados", é o que legitima o discurso da revista. Essa rinha entre direita e esquerda ganha contornos de uma briga de moleques. Veja joga a isca e a esquerda, do alto de seus dogmas, vai lá e morde. Quer dizer que Paulo Freire é imune à críticas? Que é um crime mortal pensar diferente?

O problema da Veja não é o Diogo Mainardi ou o Reinaldo Azevedo. Ambos escrevem colunas. Colunas são necessariamente opinativas. Se você não concorda, problema seu. O problema é ver as matérias, que posam de distanciadas, com aquela verve mainardiana. Um veículo que escreve matérias opinativas está fazendo seus leitores de babacas.

Querer ir além do critério técnico é demais, é dar o álibi que eles querem. Ninguém percebe isso? Nessas horas sempre lembro de um amigo, sujeito sábio, que sempre nos lembras: ideologia emburrece. Vamos terminar mancos de pensamento graças a ela.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Não sou fã de ninguém


É que o fã, aquele de verdade mesmo, é uma das criaturas mais estúpidas a caminhar sobre a superfície terrestre. O motivo eu busco com Fernando Pessoa, lá n'O Livro do Desassossego: "Hoje, as pessoas deixaram de acreditar em Deus pelo mesmo motivo que seus pais acreditavam — sem saber por quê". Este nosso ateísmo de merda do século XXI não é uma convicção, aquela falta de fé que liberta. É só que Deus saiu de cena — o porquê ninguém sabe ao certo — e nos deixou uma cadeira vaga na cabeça. Todo mundo está disposto a virar um aiatolá atômico na primeira esquina.

O fã é um animal desprovido de senso crítico. Pra ele, se um artista faz seu papel bem, o sujeito só pode ser uma pessoa boa e cantar Noite Feliz nos natais em família. Não bastasse isso, o fã ainda faz questão de um autógrafo, aquele papel assinado — seco, impessoal. "À Fulana, um abraço do Fulano". Ora, vassifudê, minha cara.

A comunidade do CQC no Orkut é um exemplo. As criaturas já criaram tópico para mandar presentes no aniversário do Danilo Gentili, humorista que trabalha no programa. Já surgiu uma disputa entre fãs do Pânico na TV e os do CQC, com direito a argumentos riquíssimos como: "Eh o melhoor programa pra sempriii". Não admira, não: o fã renunciou ao seu senso crítico, virou um religioso.

Eu sei, eu sei. A Velha Guarda da História vai levantar os indicadores e acusar a minha geração de estar perdida, de não ter ídolos, modelos a seguir. Olha: não é que eu seja um rancoroso que não gosta de ninguém. Gosto do Guimarães Rosa, do Dalai Lama, do Tom Zé. Só não coloco minha mão no fogo por nenhum deles. Prefiro a inteligência, a liberdade moral e intelectual. Bem melhor do que o risco de apoiar genocidas megalomaníacos, não?

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Pagode 2.0 - No meu Orkut só dava você

Não desistam antes do refrão:



Depois de umadessas, só acreditando em Jesus Cristo mesmo.

sábado, 20 de setembro de 2008

Hoje acordei meio apocalíptico

Imagino o dia em que as ratazanas vão sair dos seus buracos e beber nosso sangue nos escoadouros da cidade. É que essas conversas de catástrofes naturais me metem mais medo que aqueles filmes do George Romero me metiam na infância. Aqueles lá, vocês sabem: voltas de mortos-vivos, açougues feitos de groselha.

Estamos fodidos. Todos nós.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Eu li a Biografia do Coelho


E li em dois dias. É um daqueles livros que eu gostaria de ter escrito. Não guardo nenhuma admiração pela obra do Coelho, que eu nem conheço: li Brida, é verdade, há alguns anos, mas não gostei. Queria ter escrito O Mago, do Fernando Morais, porque queria eu também embarcar no fenômeno editorial chamado Paulo Coelho. 100 milhões de livros vendidos.

Não só por isso, é claro. Eu achei surpreendente o Fernando Morais por ele ter começado a biografia do Chatô com o jornalista e sua filha vestido de índios comendo a carne de um jesuíta português, tal e qual seus ancestrais caetés. Em O Mago ele vai mais longe: o diabo em pessoa visita o Coelho e sua namorada em um apartamento na Urca. E ele cheira a necrotério. O diabo, não o apartamento. A diferença é que o Chateaubriand canibal é ficção a visita do cramulhão é, segundo os diários do Coelho, a verdade nua.

Agora eu não tenho mais preconceito contra Paulo Coelho. Não é que eu vá virar um leitor assíduo de seus livros, que os temas não me agradam. Só acho que, com todo o respeito aos discordantes, o nariz em pé quanto a ele tem mais de inveja do que de qualquer outra coisa. Que mal há em se fazer literatura comercial, ora? Os livros do Coelho, no fringir dos ovos, não tem nada diferente de um Harry Potter ou um Código Da Vinci.

Falo sério: tem quem nutra um ódio irracional contra o sujeito. Mesmo. Não dá para dizer, ora, que o Coelho seja um completo idiota. Lembrem das belas músicas que ele fez para Raul Seixas e outros artistas. Gita — baseada no poema indiano Bhagavad Gîta, em que Krishna passa ensinamentos ao príncipe Arjuna em pleno campo de batalha — é um das coisas mais bonitas que se tem na música brasileira. Ele ainda foi internado duas vezes em um hospício, matou uma cabra para "saciar o anjo da morte", teve relações homossexuais, usou todo tipo de droga. Não dá para negar que é um personagem muito interessante, altamente "biografável".

No final das contas, a impressão é de que Paulo Coelho é um projeto editorial que deu certo, um self-made man. Seu diários de toda a vida repetem seu sonho de ser um autor reconhecido mundialmente.

Não sejamos uns recalcados. Nem só de jorges amados e guimarães rosas o mundo vive. Deixem o Coelho vender seus livros em paz.