terça-feira, 27 de maio de 2008

Choro

Eu gostei mais de O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Achei mais forte, mais corajoso, mais visceral. Não que o Ensaio Sobre a Cegueira também não seja. Pelo contrário. É que o primeiro é uma das mais belas críticas à religião que já vi, e mesmo assim é profundamente espiritual.

De qualquer forma, confesso que fiquei interessado quando ouvi dizer que o Fernando Meirelles faria uma adaptação do Ensaio para o cinema. Interessado e temeroso, que adaptações literárias para o cinema raramente dão certo. Ainda mais que o filme se chamaria Blindness e não seria rodado em língua portuguesa. E depois de Cannes ouvi críticas não muito positivas, que fizeram murchar minha ansiedade pela espera do filme.

Ontem, fuçando pelo blog do Sérgio Rodrigues (do falecido No Minimo) soube que publicaram no Youtube o vídeo da reação do Saramago ao ver o filme. Ele chorou. "Fernando, estou tão feliz por ter visto este filme como estava quando acabei de escrever o livro". Quem precisa de Palma de Ouro depois de um elogio desses?

O filme:

terça-feira, 20 de maio de 2008

A Volta do Demônio Verde

Nunca fui com a cara do Demonoid. Inveja, talvez. A notícia é que tenho levado o mês tediosamente e nem soube que o site, depois de ficar fora do ar, voltou no dia 11 de abril. O Demonoid, para quem não sabe, é um site indexador de torrents, ele é um rastreador público de arquivos de vídeo, música e o escambau. Torrent é um protocolo de processamento rápido para download. É o Torrent que eu uso para suprir minha dose semanal de enlatados americanos baixando Lost. Em poucas palavras, o Demonoid é uma puta dor na cabeça dos defensores ferrenhos da propriedade intelectual.

Funciona assim: eu tenho um documentário raro de um cineasta esquimó sobre todas as dezenas de palavras que o povo esquimó tem para falar branco, tesão da semiótica. Eu faço desse vídeo um arquivo .torrent e, com a ajuda de sites como o Demonoid, você encontrará um link que lhe permitirá conectar-se a mim para baixar o filme. Mas o que o Demonoid tem de especial se vários sites oferecem o mesmo serviço? É que o Demonoid tem a dinâmica de uma seita, e daí minha inveja. Você só entra com um convite e se cumprir certos requisitos, como uma velocidade mínima para envio de arquivos.

Não entendo, do alto de minha ignorância, as razões que fazem alguém considerar tal fato um crime. Mentira, eu entendo: é que o futuro os aflige em seus interesses. No entanto, o que as redes de compartilhamento fazem sempre me pareceu nada criminoso, nobre até. Se eu tenho um CD e um amigo gosta dele, creio que não serei condenado moralmente e criminalmente por fazer um cópia e entregar a ele. As redes p2p (peer-to-peer, par a par) fazem o mesmo, só que com proporções maiores, muito maiores. Posso conseguir uma cópia com um morador do Himalaia, em vez de procurar meu vizinho.

O Demonoid voltou e eu, mesmo com o recalque da exclusão, achei a notícia boa. Não gosto do esquema oito-ou-oitenta, ainda precisamos pensar sobre a concepção de copyright, mas é bom que exista quem nos põe na marra para pensar. No site Suprnova.org andaram publicando um manifesto: "O que quer que vocês afundem, nós construiremos de novo. Aonde você forem, nós estaremos na frente. Vocês são o passado e os esquecidos, nós somos a internet e o futuro". E são mesmo.

Ah: se alguém tiver um convite, eu tô querendo. =)

Quem é você Cara Pálida?

O sitemeter acusa visitantes de Mirassol (SP), Bauru (SP), São Paulo (SP), Uberlândia (MG), Passos (MG), Belo Horizonte (MG) e um de Amadora (Portugal!). Fiquei curioso. Tudo bem que - sei porque tenho autocrítica -- que esse blog não é o lugar mais interessante pra se deixar um comentário, mas ficaria feliz de saber como esses pessoas chegaram até aqui. É que só meus amigos costumam ler isso aqui e mesmo assim apenas ocasionalmente. Não imagino o que o amigo lusitano viu por aqui. Internet é legal por isso. =)

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Aspas de Si Mesmo

para os amigos da ECO

É assim: o pessoa é contratada por uma instituição pública, tem um belo currículo, publicações etcetera e tal. No primeiro momento, ela parece até ser gente boa. E chega a primeira leitura. O autor? Ela mesma. Segunda leitura. Ela mesma. Terceira. Ela mesma. É ético? Já digo.

Ano passado, Hugo Chávez promoveu um plebiscito para que os venezuelanos decidissem pela possibilidade de reeleições infinitas. Não passou. . Mas e se a maioria quisesse? Não seria democrático? Claro que não. Democracia não é só uma questão numérica. Se fosse, o nome seria "ditadura da maioria". A lógica que impede reeleições infinitas supõe a (real) possibilidade de que o fulano use a máquina pública para conseguir votos. A esse tipo de prática dá-se o nome de fisiologismo.

A mesma análise vale para o sujeito que usa sua posição no meio acadêmico para fazer propagando da si mesmo e conseguir algum status na Academia. É ético? Claro que não. Quem não pensou no exemplo do fisiologismo levante a mão. Passar textos próprios ocasionalmente ou se a pessoa for pioneira em alguma pesquisa, vá lá. Agora vetar a pluralidade, que é essencial ao conhecimento, em nome de vaidade, tenha dó.

Não sou carola de Igreja para condenar a vaidade de ninguém. Mas falta de autocrítica, ah, isso eu aponto e reclamo mesmo.